sexta-feira, 7 de março de 2025

Espelhos

 

Sou realista. Não me entrego a paixões.  Não; não me apaixonei por você. E de modo algum eu te amei. Tudo isso, na verdade, apenas um pouco; bem pouco.

Gostara da lentidão tosca de sua barba a roçar meu pescoço, dela escorrer, lenta suave aspereza, a picar frestas e talos de  frêmitos; trânsito até o cosmos que sonharás ainda entre minhas pernas.  Apreciei provar a doçura de sua potência a sobrevir, rija proa, em gozo de marés que eu desconhecia. Então, foi aprazível repousar pela pele sua, corpo sobre corpo, algum suor entrelaçado, ofegante. Em que medida chamejou em mim esse sono aconchegado, despercebido sobre as paragens do seu peito?

Gostei, então, e especialmente, das velas de sua mão a velejar por todo meu corpo. Frustrados, assim, o tempo e as tentativas de assistir, inteiro, um filme ao seu lado.

Razoáveis nossos risos. E o vinho a vazar as horas.

Seu cheiro e anatomia caíram em meu agrado? Como se não houvesse saída, divertia-me, muda, a fitar seus olhos – tão perto como as nuvens de nuances que eu percebia, camaleão brincando conforme a luz.

Gostei de conversar migalhas à mesa, pelo sofá, pela cama. Milagres da intimidade tornavam tudo mais fácil, mais livre e delicioso.

Simplório e déspota, agradou-me a servidão em seu jeito de me despir pelo olhar. Com tanto entusiasmo contemplavas meu corpo que, nesse gesto mesmo, eu já estava saciada. Límpida lascívia das retinas.  E eram olhos, lábios, mãos, língua e muito mais a me esquadrinhar.

Gostei de imaginar-me nessa nova moldura de abismos, espelhos. Era bonito ver-me com este adorno, esta voluta que foi você. Breve horizonte de eventos, paisagem.

Inventário medíocre, é doce te utilizar, apetrecho, para pintar esta tela. Tua tinta insuficiente. Que tesão tecer tais obscenidades. Orgasmo de olhar-me. Você. Em mim.

 

Carolina Parrode, ficcionista em collab.

quinta-feira, 6 de março de 2025

A Minha Substância

 

A Substância — filme dirigido pela roteirista e diretora francesa Coralie Fargeat — é uma obra de horror visceral e perturbador, marcada por uma estética violenta que despertou tanto controvérsias quanto elogios.


Esse filme se revela para mim como uma alegoria complexa da relação entre mãe e filha, uma dança em que o amor e a destruição se entrelaçam. Evoco aqui as minhas próprias experiências e as reflexões de Malvine Zalcberg, Simone de Beauvoir e Elizabeth Badinter sobre a construção da feminilidade e o mito do amor materno.

 No filme, vemos um corpo que se origina de outro corpo, mas que, paradoxalmente, possui o poder de aniquilar sua matriz. Tal como a maternidade, que, uma vez decidida, é irreversível, a relação entre mãe e filha implica numa troca íntima e permanente, na qual ambas deixam marcas profundas e indeléveis uma na outra.

A filha, que nasce dependente e em processo de formação, reflete-se na mãe e, em última instância, redefine-a, questionando suas próprias sombras. Esse espelhamento, que me lembra o “estádio do espelho” de Lacan, processo de constituição de si a partir de um outro, revela facetas escondidas da mulher que só emergem no exercício da maternidade.

Em A Substância, Sue e Elisabeth se entrelaçam. Quando Elisabeth olha para Sue, vê uma criação esplendorosa, sua obra-prima. Contudo, no confronto com a criatura, Sparkle também se vê como um ser fragmentado, falho, uma projeção distorcida da imagem que estava presente em seu imaginário.

Nessa dinâmica a maternidade é um espelho, no qual a mulher se depara não apenas com a esperança de concretização de seus desejos através de sua filha, mas com a monstruosidade que pode emergir dessas expectativas.

Sue, ao injetar-se os fluidos retirados da medula espinhal da matriz a fim de  continuar experienciando a vida, simboliza a transmissão do legado materno — um processo de formação que se dá por meio do que a mãe transfere de si mesma. A transgeracionalidade. Porém, há  algo de paradoxal  nesse legado, uma substância corrompida que, ao mesmo tempo que permite à filha prolongar sua experiência de ser mulher, carrega em si as neuroses e os conflitos da matriz. É legado de vida e angústia. É uma substância que alimenta e contamina, e que nos leva a refletir sobre o que, de fato, a mãe doa de si para que a filha se constitua — e, no mesmo processo, do que ela pode prescindir em busca de refinamento e ressignificações, filtrando a herança recebida para que não seja apenas repetição, mas possibilidade de recriação.

Esse filme, portanto, pode ser analisado por outro viés além do confronto estético que tanto já ouvimos. Trata-se também  de um enfrentamento existencial e simbólico, no qual mãe e filha se tornam alteridades uma para a outra. A 'adolescenta', como podemos chamar, é um ser nascido das entranhas maternas, que ao mesmo tempo fascina e fere, revelando-se como um estranho familiar que desafia e questiona a mãe em sua essência.

 


Assim, A Substância foi para mim, em meio a um momento de conflito com minha amada filhota adolescenta, uma inquietante, horrorosa e  bem humorada exploração dos limites da maternidade, uma meditação sobre o que acontece quando a mãe se vê dilacerada pela própria criação. É um filme que transcende o horror ao expor as complexidades do vínculo entre mãe e filha, subvertendo o mito do amor materno como algo puro e imaculado, e, em vez disso, revelando-o como um processo tão intenso quanto destrutivo, tão essencial quanto ameaçador.


Carolina, mãe de adolescenta.

domingo, 2 de março de 2025

3 JUILLET DEUX MILLE VINGT-TROIS

 

PARTIE I

 

"Je ne sais pas si des esprits trompeurs planent sur cet endroit, ou si c'est dans mon cœur qu'il y a la brûlante et céleste fantaisie qui fournit une atmosphère de paradis à tout ce qui m'entoure."

 W. Goethe.



Je suis certain d'avoir rencontré une des familles les plus délicates et accueillantes de toute la Bretagne. Avec admiration, j'ai observé une belle manière de gérer la réalité. Pur savoir-vivre. Des valeurs importantes. Esthétique et intelligence. Je dois dire que je suis profondément (trop!) reconnaissant.

Éric et Izzie m'ont présenté la Bretagne. Nous avons parcouru trois villes : le pays de Saint-Malo (rs), Dinard, Saint-Suliac. La Bretagne est magnifique, divine !

J'ai vu une rivière se déverser dans la mer. Nous avons sauté dans la mer bretonne (GELÉE!) et nous nous sommes baignés joyeusement. Ces eaux forment l'un des plus beaux paysages que j'aie jamais contemplés. L'eau était calme et légèrement salée.

À Dinard, nous avons marché pendant des heures sur les rochers au bord de la mer. J'ai tout observé : la blancheur de l'écume se mouvant entre les rochers ; la palette de couleurs de l'eau ; la végétation ; les gens. En chemin, il y avait des herbes comestibles : Acidulées et salées à la fois. Si je ferme les yeux, je peux encore en goûter l'acidité, comme une écorce de mandarine. Lors d'une autre promenade, il y avait une végétation abondante. Des rochers. Une eau d'un bleu incomparable. Des chemins tortueux à travers la verdure et une petite cabane mystérieuse avec une chaise à la porte. Un jardin partagé. Des traces d'un feu de la Saint-Jean / ‘fogueira de São João’ aussi.


Au sommet de la montagne, le vent était doux avec un arôme vert, légèrement salé en arrière-plan. Le soleil avait juste l’intensité idéale pour que je puisse admirer le ciel et sa nuance de bleu sans inconfort. Je respirais profondément, fixant mon regard pour graver dans ma mémoire ce que j'admirais, ainsi que l'odeur. Et la sensation de ces moments. Dans ma tête, je me suis dit: « heureusement que je suis en vie ». Un peu comme Diego, d'Eduardo Galeano, quand il vit la mer pour la première fois. Assis au sommet, ils ont sorti de leur sac une infusion de plantes, bien chaude ! Et nous l'avons bue en appréciant la vue, en silence. La fin de la randonnée s'est terminée dans la sympathique boulangerie locale, avec une file respectable à la porte… pleine de croissants, de pains au chocolat, de baguettes que nous avons emportés pour les déguster ensemble au petit déjeuner, au jardin. Beurre, fromage, jus de pommes, café, tomates, concombre, kouign-amann. Une serviette en lin blanc, délicatement brodée à la main, avec un fil lilas.

Aujourd'hui, mon visage reflète mon âme. 

CARROLINAH.

 

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Entre a Doença e a Loucura - Parte II


"Opiniões vazias sobre questões tão sérias, por si só, podem até não matar, mas com certeza ajudam a apertar o gatilho"
Djamila Ribeiro



No Camboja, um dos mais antigos templos de Angkor: O Banteay Srei, construído no Século X. Também conhecido como "cidade da mulher".


Aprendi com a psicanálise e com a experiência de educadora que tornamo-nos humanos na medida em que relacionamos com o outro e temos a obrigação de lidar respeitosamente com seus interesses, valores e sonhos, nem sempre compatíveis com os nossos. Temos que conviver com a condição do outro. E mais: a inteligência está justamente em constituir-se e enriquecer-se em meio a essas dificuldades e recônditos do relacionamento humano. O jogo de aproximar-se, afastar-se. O amor, o respeito, o diálogo. Forma democrática, em sentido amplo. Democracia que, de certa forma, persuade e fragiliza porque, para convencer sem dominar, é preciso correr o risco de ser convencido do contrário, de deixar-se transformar pelo outro.
Ao contrário da dialética saudável, encontramos o autoritarismo. Aquela relação que domina, coloniza o outro, o reduz a mero objeto inanimado. Mas o insight está em saber que ao subjugar o outro, reduzo-me também. Abro mão da maior fortuna da humanidade: enriquecer-se a partir/mediante/com o outro.
É sempre perniciosa a relação vertical. E essa coerção tem muita força! Prova disso é o trágico caso da inspiradora da Lei nº 11.340, a farmacêutica Maria da Penha, que após sofrer violência nas mais variadas instâncias - psicológica, afetiva, física dentre outras – levou um tiro de espingarda de seu então esposo. Apesar de ter escapado da morte, ele a deixou paraplégica, situação em que se encontra desde a data do crime, em 1983. Quando, finalmente, voltou à casa, sofreu nova tentativa de assassinato, pois o marido tentou eletrocutá-la. Enfim, apesar da óbvia constatação das agressões domésticas sofridas por Maria da Penha, quando criou coragem para denunciar seu agressor, ela se deparou com uma situação que muitas mulheres enfrentavam nesse caso: incredulidade por parte da Justiça brasileira.
O caso de Maria da Penha só foi solucionado em 2002 quando o Estado brasileiro foi condenado por omissão e negligência pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Desta maneira, o Brasil teve que se comprometer em reformular suas leis e políticas em relação à violência doméstica.
Apesar do sucesso da Lei Maria da Penha, as estatísticas da violência contra a mulher no Brasil continuam altas: todos os dias cerca de 13 mulheres são assassinadas no Brasil. Em 2013 foram registrados 4.762 assassinatos de mulheres. Destes, 50.3% foram cometidos por familiares, e em 33.2% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro ou ex.  Três em cada cinco mulheres jovens já sofreram violência – em todas as instâncias - em relacionamentos segundo pesquisa feita pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular (nov/2014).
É importante salientar que a lei visa proteger a mulher da violência doméstica/ familiar e atos abusivos, tais como o afastamento dos amigos e familiares, ofensas, destruição de objetos e documentos, difamação e calúnia... dentre outros os absurdos praticados pelos “parceiros amorosos” contra suas mulheres. É claro que quando há violência física, ela é manifesta e incontestável, chegando até a extremos como no relato que lemos acima. No entanto, importa notabilizar que a violência física é uma das modalidades, havendo outras! As outras não são tão manifestas, mas também deixam sequelas ao longo de toda a vida da mulher. Existem mulheres que mesmo após muitos anos do rompimento, ainda encontram-se em convalescimento ou paralíticas emocional e psicologicamente. Parte daí a necessidade que tenho em dizer que “feminismo” não é sobre guerra entre os sexos e nem sobre uma certa ‘compensação histórica’. É sobre  luta por igualdade de condição humana. É um sentimento necessário e indispensável para a dignidade e sobrevivência saudável, em primeiro lugar, das famílias, e em sentido amplo, da própria civilização.

Carolina Parrode, minoria ativa.

terça-feira, 2 de julho de 2024

E se...

 

"Não sei se espíritos enganadores pairam sobre este lugar, ou se é no meu coração que está a ardente e celeste fantasia que fornece uma atmosfera de paraíso a tudo o que me rodeia"

Os sofrimentos do jovem Werther, W. Goethe.

 

Era um sábado cansado e, quando cheguei, você já estava lá, de óculos escuros e cerveja de garrafa. A mesa exalava um desajeito proposital.

A voz grave da cantora entoava Christian & Ralf, enquanto um cachorro caramelo, de bagos rente às patas, perambulava em sua rotina de esperançoso gourmet.
Um senhor dançava feliz, sorriso aberto, gengivas saudáveis à mostra, transformando a calçada num salão de baile.

Ele me fez rir.

O ocaso trouxe sentimentalidades, uma modulação curiosa entre descrença, graça e delicadeza. Um tipo de quimiotipia do século XIX, e eu? Deixei o barco seguir a correnteza.

Tinha um olhar que me atravessava como lâmina doce, cortante na medida exata. Foi aí que parei de olhá-lo de soslaio. Fez por merecer.

Passei a achar adolescentemente carinhoso – ridículo-quase-sedutor – o jeito como segurava minha mão.
Tinha riso e espontaneidade.

Veio o domingo e eu estava pensando em você.
Dia ordinário e tranquilo – e não eram assim as manhãs dominicais. Deitada, como um álibi. Pensamento tomado por desatino.
Talvez tenha sido seu olhar meio caído, feito cachorro. Eu gosto de cachorros. Talvez soe familiar.

Sem desculpas.

Meu corpo se antecipa, conhece o mundo antes de mim. Os corpos são convincentes e cabais.
Mas você não me deixa conhecer o nosso mundo através do seu corpo. Talvez, se deixasse, eu nem gastaria meu domingo desatinando. Estaria, quem sabe, almoçando com algum dos não-eleitos. Aqueles que orbitam minha atmosfera como uma massa indistinta de masculinidade.

Tenho cautela para não ser exigente demais e, ainda assim, rechaçar o descabido. 
Ainda bem que és hábil em fugir, porque, se uma gota de erotismo pingasse nessa ternura, não haveria vinho, nem disciplina com força de impedimento. E, nesse caso, eu não prestaria para o trabalho.

Inútil, porém funcional. Sou boa de espera, mas não muito.
Seu cortejo me provoca e me desanima, apesar da minha voracidade usual.

"Posso?"
Desânimo. Desalma.

Sigo aquela picada no meio da mata que indica a direção. Se é vereda, a linguagem é fluente. Tudo flui, tudo frui. Usufruímos menos, bem menos do que poderíamos.

Não há um eleito. E se eu quisesse que fosse você?
Você não quer.

Eu sei que amanhã é segunda-feira e vai passar.
Não gostaria, mas passa.

Sei lá... Deve ser seu cheiro. O cheiro e a presença. A voz. Não, não. São os olhos caídos e meu gosto por cachorros. É isso. 

Mas também gosto do olhar e do toque. Do beijo, nem lembro mais.
Odeio a insegurança. Sua covardia me empurra pra longe. Rabugento, ingrato com a vida... Reclama. Aprecia restaurante português, mas não come bacalhau.
Descabimento.

Seria gostoso um pouco de confiança e devoção da minha parte. É raro, mas acontece.
Obedeço deleitosamente.
Mande-me te beijar, ficar ao seu lado, tirar a roupa – a minha ou a sua.
Mande-me ficar de roupa.
Escolha o lugar, diga que está chegando, escolha o vinho.
Tente me desconcertar.

Eu queria muito você. Assim, em outro tempo mesmo. 
Queria, na verdade, que você fosse outro...
Um outro que não estragasse a poesia de tudo nos últimos cinco minutos de prosa.





Carolina.


terça-feira, 2 de junho de 2020

Pandemia, instituições, economia e saúde mental


“Os maus, sem dúvida, entenderam alguma coisa 
que os bons ignoram”
Woody Allen



Alguém já ouviu falar do tal “Sistema de Freios e Contrapesos”?
Também é conhecida como a Teoria da Separação dos Poderes. É o seguinte: um francês, da época da Revolução Francesa, chamado Montesquieu visitou as ideias de Aristóteles, John Locke e alguns outros; juntou com os colegas e redigiu “O Espírito das Leis”. Nesse tratado, ele explica, amplia e sistematiza a divisão dos poderes.
É um tratado de passividade entre os poderes? NÃO!
É um manual sobre como um não pode interferir no outro? NÃO!
É um texto que explica a hierarquia entre os poderes? Também NÃO!
Inclusive, a Teoria da Separação dos Poderes de Montesquieu foi inspirada no pensamento democrata-liberal do Locke, que partia do princípio que os homens nasciam livres e com direitos iguais (‘çei’... hello Brasil, 2020). Ela surgiu na época da formação do Estado Liberal baseado na livre iniciativa e na menor interferência do Estado nas liberdades individuais. Essa tripartição clássica dos poderes se dá até hoje, na maioria dos países, e está consolidada pelo artigo 16 da Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e prevista no artigo 2º da Constituição Federal brasileira, onde nós dividimos e especificamos as funções de cada poder.
Resumindo, a ideia principal dessa teoria é evitar a concentração de poder e estabelecer uma espécie de controle mútuo (lembrem que na época das revoluções burguesas o problema era o absolutismo, a tirania de um único soberano – o rei).
Montesquieu acreditava que para afastar governos tiranos, era preciso estabelecer a autonomia e os limites de cada poder. Com isto, cria-se a ideia de que ‘só o poder controla o poder’. 
Então, o Sistema de freios e contrapesos, mostra que cada poder é autônomo e deve exercer determinada função. Porém, este poder deve ser controlado pelos outros poderes! Assim, um Poder do Estado está apto a conter os abusos do outro de forma que se equilibrem. O contrapeso está no fato de que todos 3 os poderes possuem funções distintas, fazendo, assim, com que não haja uma hierarquia entre eles, tornando-os poderes harmônicos e independentes. 
A ideia é brilhante. Vejam só... quando o Judiciário declara a inconstitucionalidade de uma lei, isso é um freio ao ato Legislativo, que poderia conter uma arbitrariedade. 
Para que o abuso de poder não ocorra, é necessário que "o poder freie o poder".
Desta forma, a separação de poderes seria o sistema mais compatível com o Estado Democrático de Direito porque limita a tirania e abuso, e “garante” a plena liberdade política dos indivíduos e dos direitos das minorias (teoricamente).
É importante ressaltar que Montesquieu não elaborou a teoria pensando nos processos sócio-históricos do Brasil, obviamente. Por aqui, temos uma educação política precária e a desigualdade social é tão gigantesca que chega a impedir o exercício de direitos. Se o indivíduo sequer sabe de seus direitos, como exercê-los? Qual é o livre arbítrio do analfabeto? Qual a prioridade do cidadão que não usufrui da mínima infraestrutura? 
Montesquieu não contou com o fato de que, no Brasil, sua teoria seria trajada por um tecido social estruturalmente racista e violento; classista e desigual. Onde os cidadãos mal teriam condições de refletir no exercício de uma liberdade política viável. Nos planos do filósofo, ele havia traçado uma prevenção eficaz contra o abuso governamental submetendo governantes e governados às regras e aos procedimentos legais, onde ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de prévia determinação legal.
🎬 Corta!
Brasil, pandemia/2020.
Manter-se informado dos acontecimentos sócio-políticos do Brasil requer muita saúde mental e emocional. O brasileiro é um povo que sofre abuso psicológico diariamente, basta acompanhar as notícias.
Ultimamente assistimos, por parte do chefe do Poder Executivo, a proposta para a instauração de um confronto institucional: Executivo X Judiciário. É sara inverno, olaff de carvalho, 01, 02, 03, fetiche de ser amamentado na adultescência, #foraSTF, #dentroAi-05 etc.  Não suportamos mais submergir em significantes como pandemia, curva, mortos, desemprego, fascismo, racismo, machismo, homofobia, direita, esquerda, economia, bolsonarismo, saque, poder, injustiça, expropriação e tantos outros significantes, com suas enxurradas de significados.  
Se já está difícil suportar para os que usufruem de privilégios, imaginem para quem vive à margem e depende de um Estado forte nesse momento para conseguir manter sustento (sustento material e psicológico)?
Nesses dias, obter um tanto de satisfação é um trabalho hercúleo. O brasileiro assiste os órgãos do Poder Executivo e entidades a ele ligadas adotarem posicionamentos de desrespeito... Ações que minimizam a importância do Judiciário diante da nação. O enfraquecimento dessas instituições democráticas lançam a sociedade contra si e criam um clima de antagonismo institucional.
O cenário atual do Brasil mostra ao povo que o Poder Legislativo, Judiciário e governos estaduais são obstáculos constitucionais que precisam ser ‘desempoderados’. O presidente quer garantir uma gestão baseada numa visão própria da Constituição, sem submeter-se às limitações constitucionais do “Sistema de Freios e Contrapesos”. Como encontra reação, dobra a aposta no confronto e instiga seus apoiadores e eleitores. A pergunta que fica é: esse tipo de confronto é produtivo para QUEM e para QUE?! Essa espécie de antagonismo é produtiva para nossa democracia, ou a empobrece e amedronta o cidadão?
A experiência de ser brasileiro, nos últimos dias, tem se resumido a momentos de alegrias individuais, seguidos por longos períodos de desesperança, impotência e tristeza. Um momento político que poderia nos instigar ao otimismo, em verdade nos cega para beleza e empobrece nossa lógica. A noção de justiça nos foi usurpada e o que resta é uma sensação de ridículo diante da nossa indignação ineficaz. Gritar por transparência, probidade, direitos humanos e garantias de direitos parece-nos um ato infantil e descontextualizado. A noção de tempo está pervertida, pois é pautada pelas atualizações das notícias e tempestade de textos e opiniões sobre cada uma das tragédias.
Ser brasileiro é uma angústia.


Carolina Parrode, antifascista.

domingo, 22 de março de 2020

QUAL O SEU PAPEL DIANTE DA CRISE?


“Não podemos acreditar em verdadeira liberdade e democracia enquanto existirem pessoas privadas de direitos e da sua própria liberdade”
Angela Davis


“Liberdade é coisa que se conquista conjuntamente”
Juliana Borges


Em época de pandemia é preciso repensar a função social das instituições de ensino. É preciso atuar no sentido de proporcionar conhecimento e mediar bem-estar entre todas as formas-de-vida que compõem nossa comunidade – entre os membros das famílias -, ato que está muito além das técnicas pedagógicas de ensinar, do oferecimento puro e simples de conteúdos pedagógicos e grade curricular.  Pelo o que temos lido e pesquisado... a quarentena durará mais tempo e o prazo colocado pelas autoridades governamentais será, seguramente, ampliado.
A luta que se impõe à nós, nesse tempo, é a construção de um empoderamento humano e isso, é coisa que se constrói junto, com empatia, essa tão falada habilidade de projetarmos em nós dificuldades, valores, sentimentos e ideias do outro; do estranho.
A ideia também não é despertar uma solicitude benevolente, ou assistencialista, tampouco salvacionista. A ideia é que, a partir desse momento de isolamento social, quarentena responsável e reflexão, sejamos capazes de viajar dentro de nós mesmos e nos projetar no outro para que compreendamos visceralmente que LIBERDADE É COISA QUE SE CONQUISTA CONJUNTAMENTE e não deve JAMAIS, ser mercadoria, moeda de troca ou privilégio de poucos.
Tempos de crise evidenciam a miséria e vulnerabilidade da nossa sociedade. Existem diversas formas de materializar injustiças... e momentos de tribulação fazem isso de forma evidente e trágica. Há algo muito errado com as bases de nossa fundação enquanto pólis e isso tudo precisa ser repensado. Sabemos que a Educação é campo de conflito, questionamentos e transformação. Assim sendo, como comunidade de ensino, somos o lugar ideal para repensar as bases, o nosso papel e propor reflexões significativas diante da crise.
A disseminação desse vírus - o corona - que rapidamente transformou-se em pandemia, traz consigo o caos e o colapso. Traz alto risco de contaminação para nós, para quem amamos e queremos bem. Potencializa nosso caos interior.  Mas não para por aí... Traz também o caos nas relações de trabalho, no contrato social - até então estabelecido e silenciado -, no impulso imanente de produção... evidencia o furo na relação social de produção. A pandemia explicita a ineficiência do sistema, quão frágil e insustentável é o nosso modus vivendi; escancara as entrelinhas, o subentendido, o mal-dito: que o sistema é mais importante do que as pessoas que nele vivem.
Estamos assistindo a concretização do inevitável: pessoas vulneráveis e fragilizadas pelo sistema partirem da situação de exclusão para a de extermínio; e é exatamente isso que o filósofo camaronês Achille Mbembe chamou ‘necropolítica’.
O repórter Ricardo Westin escreveu um artigo para El País sobre a gripe espanhola no Brasil, em 1918. O trecho que gostaríamos de transportar chama-se “Os pobres ao deus-dará”:


A epidemia escancara uma deficiência grave do Brasil: em termos de saúde, os pobres estão ao deus-dará. Não há hospitais públicos. Não é raro que as pessoas, assim que se descubram “espanholadas”, busquem socorro nas delegacias de polícia. Quem, aos trancos e barrancos, presta alguma assistência à população carente são instituições de caridade, como as santas casas e a Cruz Vermelha.

— As famílias ricas são menos atingidas do que as famílias pobres porque se refugiam em fazendas no interior do país, mantendo distância do vírus — conta o historiador Leandro Carvalho, professor do Instituto Federal de Goiás e autor de dois estudos sobre a epidemia de 1918.



Como conjugar então, sujeição e liberdade, já que prevemos diversas crises acessórias e posteriores a pandemia do coronavírus?! Se era preciso algo suficientemente forte para abolir o estado atual das coisas, já temos. Não é questão de ceticismo, pelo contrário, é a propositura de uma utopia eficaz, que age para reforçar nosso senso de coletividade e oferece esperança em um mundo incerto. 


     Continuemos em casa, mixando serenidade e inquietude. Mas, enchendo nossos corações, mentes e mãos de indignação, desejo de transformação, amor e CORAGEM. Porque depois que todo esse perigo biológico passar... ficará a consequência sócio-econômica do caos. E é aí que poderemos agir em prol de uma mudança. Algo totalmente diferente do que vivemos até agora. Talvez possamos iniciar novos projetos, estabelecer outros hábitos e padrões de consumo, amar mais, construir novas leis e uma sociedade onde o sistema não seja mais importante do que as pessoas que nele vivem; onde coisas não importem mais do que pessoas; onde o principal objetivo legislativo e institucional não seja proteger a propriedade privada e a liberdade de mercado ACIMA DOS INTERESSES DA COLETIVIDADE. Podemos nos propor a repensar nossa humanidade e estrutura diante dessa crise, nossas relações, nosso olhar sobre o outro. Estamos todos evoluindo. E precisamos ter a certeza de estarmos fazendo isso juntos.Já que liberdade é coisa que se conquista conjuntamente, não haverá espaço para quem quiser manter o status quo. Nós, em união, não permitiremos.

Carolina Parrode, quarentenista.