domingo, 10 de março de 2019

Não Me Apaixonei Por Você

Realista como me proclamo, deveria ser imune às paixões lancinantes. Mas digo, com uma relutância que me desmascara, quão inúteis são tais autodeclarações. Pois aqui estou, confessando que não foi paixão, nem amor. O que vivi foi a mera e deliciosa luta contra a inevitabilidade do desejo.


Eu só gostei do jeito como a sua barba mal feita roçou no meu pescoço... e não só no meu pescoço, entre as minhas pernas.

Gostei de experimentar a suavidade da sua potência sobrevindo de um jeito tão gostoso que eu jamais havia provado.

Até que gostei de deitar o meu corpo suado sobre o seu, quando me cansava, ofegante;

Gostei um pouco do aconchego de adormecer sobre o seu peito sem nem perceber, depois de tudo;

Gostei da sua mão, que não se cansava de alisar meu corpo. Disso gostei muito.

Você consumia meu tempo e minhas tentativas (frustradas) de assistir um filme inteiro ao seu lado... Impossível.

Foi até razoável rir com você... E o vinho, o avançar das horas.

Também seu cheiro e sua anatomia, talvez tenham caído no meu agrado. E como se não houvesse saída, tentava me divertir com a brincadeira muda de fitar seus olhos bem de pertinho e perceber as nuances... e como mudam de tom conforme a luz.

Gostei de conversar migalhas com você à mesa, no sofá e na cama. A intimidade fez seu milagre e tudo foi ficando cada vez mais fácil, livre e delicioso...

Gostei do jeito simplório e viril com que despia-me, com o olhar. Encarava meu corpo com tanto entusiasmo que dali mesmo eu já me sentia saciada... satisfeita por nossa lascívia.

Gostei do modo como você me esquadrinhava com os olhos, com as mãos, com os lábios, com a língua... e com mais!

Mas o que eu mais gostei em você... fui eu!  Foi a novidade.  Na verdade, me permitir o novo. Permitir você em mim.

Entretanto, nada disso foi suficiente para que eu me apaixonasse por você. Não houve obstáculo imposto ao desejo angustiante de ter-te em meu corpo. Por isso, não permaneci. Saibas que não foste suficiente.

Só o que resta do nosso caso morto é este inventário. Medíocre. Tão comum e desimportante como o meu gostar de ti. Talvez seja importante para você saber que foi uma das mais deliciosas experiências da minha vida. E que na verdade este texto é pretexto, porque o meu gozo mora em te usar para escrever estas obscenidades.








Carolina Parrode, ficcionista

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Vários Amores, Uma Só Vida - Parte II


“Toda demanda é uma demanda de amor”
Jacques Lacan

Ella repousa na cama, dedos cruzados sobre o ventre. Seus pensamentos, inquietos, sussurram como vozes de um palco secreto.

Às 14h, ele entra no quarto. O olhar de Juan encontra-a em pleno devaneio, e sua pergunta rasga o ar:
— Você está apaixonada por outro homem?

O silêncio já trazia a resposta. Essas coisas acontecem nas frestas do matrimônio, onde os corpos se encontram, mas as mentes viajam.

Mais de uma década juntos e Juan acreditava na autenticidade de sua vida a dois. Mas Ella habitava mundos invisíveis, suspirava desejos que não cabiam em sua rotina. Seu corpo permanecia ali, fiel; sua mente, porém, era território livre, onde outras possibilidades floresciam. Onde andavam os pensamentos de Ella? E que frutos poderiam nascer deles?











Ella é uma mulher contemporânea. Poderia ser eu. Poderia ser você. Essas histórias atravessam até as instituições mais sólidas.

Quase dois séculos antes, em 1830, John Stuart Mill conheceu Harriet Taylor. Ela era casada, mas os dois se apaixonaram perdidamente. Viveram anos de espera até poderem se unir. Harriet transformou a filosofia de Mill, deu-lhe linguagem e horizonte, inscreveu-se no coração de sua obra. Amor interdito, mas fundador.

O amor é linguagem, feita de códigos e silêncios. É força que transborda biografias, ficções e fatos. Há amores que não tocam a carne, mas incendiam o pensamento. Há desejos que nunca se cumprem e, ainda assim, reinventam a vida.

Pergunto-me: pode o inconsciente, regido pelo princípio do prazer, se curvar aos interditos da civilização? E, se sim, a que custo? Talvez sejamos, todos nós, “neuróticos adestrados”, contidos no ato, mas acesos no desejo.

Porque o desejo é chama. E só arde pelo que não temos. É ausência que move os corpos. É promessa de um encontro sempre adiado.

Lembro-me de Sócrates em O Banquete: “Confesso não entender de nada mais, senão de amor.” Também eu sinto que sem amor, a humanidade não suportaria um só dia.

Entre minhas próprias limitações, concluo: diante dos freios sociais que nos contêm, o que talvez prevaleça não seja o amor ao amor, mas o amor à verdade (talvez à própria verdade). Mesmo quando ela é fragmentada, inconclusa, tempestuosa. Pois desejos passionais são como águas: correntes que podem ser riachos tranquilos ou tsunamis devastadores.


Carolina Parrode, desejante e desejada.


domingo, 5 de agosto de 2018

Res Publica, Res Privata

"O que é natural, não busquemos nos seres depravados, mas naqueles que se comportam de acordo com a natureza"
Aristóteles, Política.



É possível o ser humano alcançar o conhecimento genuíno? Apesar de saber que não, esse furor nunca me abandona. Deixa minha mente inquieta, meu coração angustiado e minha alma sedenta.

Uma das primeiras inquietudes como aspirante a jurista, foi quando das primeiras aulas de Direito Romano que assisti na Universidade, ainda no século XX. 
Depois de um tempo, me apaixonei por Direito Público e aí... questões e mais questões arrumei para minha vida jurídico-epistemológica! A sede de saber transformou-se em 'furor educandi' e, desde então, dou aulas de Direito Constitucional para crianças entre 7 e 10 anos de idade. 
O fato é que eu estava às voltas com Rousseau (pessoa que eu amo e odeio ao mesmo tempo, conto o motivo depois)  e des-cobri que a culpa da desigualdade econômica, social e política tem duas matrizes:
A primeira é a problemática da instituição da propriedade privada. A segunda é a própria civilização, malignamente ambígua.
Olhem só que trecho forte (porque Rousseau é o rei do "faça o que eu digo, não faça o que eu faço"):
"O primeiro que, ao cercar um terreno, teve a audácia de dizer 'isto é meu' e encontrou gente bastante simples para acreditar nele foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras e assassinatos, quantas misérias e horrores teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas e cobrindo o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: 'não escutem a esse impostor! Estarão perdidos se esquecerem que os frutos são de todos e a terra é de ninguém " (p. 80)

Pois é... minha vida tem temas e trilha sonora. E esses  antagonismos (que para mim são complementares) como "coletivo/individual", "público/privado", "de todos/de ninguém" são temas da minha vida, dentre outros, e meus neurônios se desgastam em torno deles!

Vejamos outro cenário: 
Passeando pelo Rio de Janeiro vi muros/portões pichados "Não fui eu"... desabafo e pichação em letra bonita digna da melhor professora alfabetizadora. Instantaneamente lembrei-me do artigo de João Moreira Salles para a Piauí de abril "Anotações sobre uma pichação -  Inocência, culpa e responsabilidade nas ruas do Rio de Janeiro". Na época li o artigo para meus alunos e conversamos muito sobre responsabilidade coletiva, infortúnio alheio, alteridade e empatia - delícia de aula.




Fato é que o articulista dizia assim no introito: "Não sendo enunciada por ninguém em particular, a frase pertence a qualquer um. A sensação de que "Não fui eu" fala de nós é uma confirmação de que, dado o alheamento geral, o melhor é jogar a toalha e cuidar da própria vida! (...) se cheguei aqui apesar dos outros, o que diz respeito ao mundo não me concerne. Natural, portanto, que eu me exima de toda responsabilidade coletiva. O infortúnio alheio não me pesa. Não fui eu."

Enfim... o que tem a ver um filósofo francês, a epígrafe do Aristóteles, o artigo de João Moreira Salles com a pichação nas ruas da metrópole ?! 
O que tem a ver a pichação com  reflexões sobre res pública e res privata?!
Sei não! Eu estava aqui só divagando sobre duas andanças vividas no mesmo dia: o caos da metrópole e pensamentos iluministas.

Carolina Parrode, pensante.





sábado, 21 de julho de 2018

Entre a Doença e a Loucura - Parte I





"Aprendi que, aconteça o que acontecer, pode até parecer ruim hoje, mas a vida continua e amanhã melhora"




Fala-se muito sobre relacionamento abusivo. Vivemos na era no feminismo, do tal “empoderamento” (palavrinha estranha, mas isso não importa), das denúncias de assédio, machismo e misoginia, da luta pela equidade etc. É muita informação importante e relevante produzida sobre o tema. São estudos, relatos, diagnósticos, autoajuda, receitas, conselhos... enfim, vê-se de tudo!
É possível encontrar inúmeros textos interessantes na rede... e também receitas e exageros. Depara-se com “Superando o fim de um relacionamento abusivo”, “Como superar um relacionamento abusivo em 28 passos” (...) e mais um monte de títulos.
Existe uma verdadeira campanha para que as mulheres diagnostiquem seus relacionamentos e, caso percebam-se submetidas a tirania de seus pares, que possam encontrar forças para sair desse lugar de jugo.
Por óbvio que sair de um relacionamento assim é um passo muito importante, no entanto é a vitória de uma batalha, mas não da guerra. Nem de longe este seria o fim da história... não é bem assim que a banda toca. O sofrimento ecoa por longo tempo.
Bem, para boa parte das mulheres não seria preciso exercício de empatia e altruísmo para imaginar/saber as condições de quem vive às sujeições de um “amor doente” (se é que pode-se chamar de "amor"). Muitas de nós vivenciamos essa experiência através de amigas, irmãs, vizinhas, filha, mãe ou através de nossas próprias experiências. Vamos juntas...
Depois de anos sofrendo sozinha, choros, noites em claro, reza brava, esforço e mais um sem número de fatos esdrúxulos, ela deve começar a pensar: “Será que eu estou louca, sou fresca ou realmente já está na hora de desistir desse relacionamento (porque vivo um inferno)?”
Depois de centenas de vezes vendo-se em situações onde pensa: “Fique calada que acaba mais rápido. Não retruque que já está acabando”. Depois de várias vezes escutar o aviso do superego: “nunca argumente com alguém alcoolizado”.
Depois de milhares de vezes de “vou sair de fininho e dormir ali num canto para não me indispor”. Depois do olhar estranho de várias pessoas... Olhos abertos e bocas bem fechadas.
Depois de tudo isso e mais um pouco, a mulher vai percebendo que algo está errado, e não é com ela!
Ver-se em uma situação assim é como a sensação de observar, inerte e paralítica, a própria lucidez esvaindo-se. Indo embora. Abandonando o barco, saltando ao mar.  E então, como em um filme de terror, a mulher debate-se dentro de si mesma. “É louca”, julgam.
Deve haver um momento em que a lavagem cerebral é tão grande e, ela já foi tão longe na missão de “permanecer”, que parecem ser duas mulheres habitando um só corpo.
Uma, a mulher inteligente que forjou-se na intelectualidade, olha bem para a outra: observa e julga compassivamente. A vê sucumbindo, enlouquecendo. Adoecendo. Mas a doença atinge as duas. A loucura, apenas uma. São doenças que desregulam a pele, o estômago, o apetite, a concentração e os cabelos da cabeça. Estragam o humor, embaçam a beleza, a maternidade, a produtividade e sua autoimagem.
A mulher inteligente é forte e revolucionária. Então a louca acaba valendo-se de sua fortaleza para tentar “fazer o que é certo” e permanecer ali mais um pouquinho... pushing a little bit harder. Afinal.. yes, you can! Então, por várias vezes ela assiste, inerte, sua lucidez indo embora. E vai mesmo. Lucidez que vai, doença que vem. É como ver-se impotente diante de si mesma. Imagem estranha.
Nunca duvidemos da capacidade de um homem extremamente impositivo e machista, reduzir e suprimir a inteligência de uma mulher.
Você olha para ela... moça bonita e inteligente. Forte. E mesmo assim, há tanto tempo, submete-se.



Carolina Parrode, mulher.

terça-feira, 13 de março de 2018

Vários Amores, uma só vida

A sociedade contemporânea advoga um ideal de igualdade não individualizada. Percebo que “igualdade” hoje significa “mesmice”, ao invés de “unidade”. A exemplo disso observamos o equivocado pleito de “igualdade entre os sexos”. Igualar para que? A polaridade entre eles é muito bem vinda, no meu ponto de vista, já que o amor erótico se baseia nessa polaridade.

Eros e Psiquê de Antonio Canova, 1793

E o amor?! Pois é... Sem amor, a humanidade não poderia existir um só dia! Um querido alemão me ensinou que “o desejo de fusão interpessoal é o mais poderoso anseio do homem. É a paixão mais fundamental, é a força que conserva juntos a raça humana, clã, a família, a sociedade. O fracasso em realiza-la significa loucura ou destruição – auto destruição ou destruição dos outros”. Pois sim! E o que tem a ver o “amor” com o “desejo de fusão interpessoal”, Sr. Fromm?! De que espécie de união falamos quando falamos de “amor”? Será que é uma resposta amadurecida ao problema da existência, ou falamos das formas imaturas de amor que podem ser chamadas “união simbiótica”?


Então te pergunto: É possível viver uma vida inteira ao lado de um único alguém? Amá-lo unicamente? Realmente não sei, pois cada ser guarda infinitas possibilidades de amor. Mas... eu humildemente guardo uma lógica (louca), que exporei a seguir: se a atividade criadora é a própria inteligência, então... se fosse possível aos amantes acessar o intelecto (aqui está a loucura do negócio), eu diria que o amor inteligente é a capacidade de amar o outro para além daquilo que ele oferece. Ou seja... ser criativo. Chamaria isso “trabalho criador”, “atividade criativa”... sei lá. 

Quem sabe isso quer dizer "amor"...
Carolina Parrode

EuroTrip não, EuropArte

Em nosso mundo dual, em muitos momentos, temos que explicar que a antítese de trabalho não é ócio, como, para a criança, o avesso de sério não é brincar. Enquanto trabalhamos, nos alegramos, amamos, somos criança, descansamos e folgamos nossas dores e ansiedades. Aonde vamos e estamos, somos nós e o nosso trabalho de aprender e ensinar a vida. Somos professoras a todo o momento, a toda a hora, em todo o tempo, permanentemente. E nosso desejo de refinamento deste ofício brincante também é invariável.





















Sabíamos, há muito, que o ser humano que não conhece a arte tem uma experiência de aprendizagem limitada. Escapa-lhe o sonho, a força das linguagens a sua volta, a sonoridade instigante da poesia, da música, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida, o significado da verdadeira existência humana. Desta feita, a “Biografia do Caminho” resolveu percorrer Portugal, Espanha e França em vias de experimentação da arte, e junto à isso compreender a história, e a lida com a realidade mundana deste continente; também, em encontros com a biografia dos mais belos e importantes artistas europeus em seus contextos de vida e subjetividades; em lugares onde o “era uma vez”, acontecia... Através de diferentes formas de registros e expressões.
















A “Biografia do Caminho” pela Europa foi uma ode à beleza, a amizade e a nossa precisão de aprendizes. “Diaspoemas” alegres, simples, bem humorados, de liberdades desmedidas, noviciados de amor pelo que fazemos. Uma compilação de coisas boas que a vida pode nos oferecer e que ficará protegido em nosso íntimo, para recordar quando formos centenárias. Lembranças de sentimentos apaixonados pelos lugares, de sorrisos brincadeiras e trovas que só amigos parceiros de muitas e diferentes viagens  constroem. Sentimentos poéticos pelo mundo, pelo outro e pela vida.



A diante, teremos "edições especiais" de publicações, relembrando entre nós e compartilhando com vocês todas as boas vivências (e as não tão boas também, rs) que tivemos enquanto "A Biografia do Caminho" percorria as estradas da Europa. E por falar em estrada... 


Tentamos por 6 minutos conscientizar você, caro leitor, a usar sacos de papel. Tentamos! 

(Bom, ao menos já avisamos sobre os momentos não tão bons... rsrsrsrs)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Somos os Lírios do Campo


“A guerra deve ser em função da paz,
A atividade em função do ócio,
As coisas necessárias e úteis em função das belas” 
Aristóteles


Hoje, elegemos falar do bom e do melhor dessa vida! Nada de vazios, tédio ou melancolia. Queremos exaltar a força extraordinária, a vitalidade e potência criadora que irrompe em nós e faz o nosso sangue ferver. É preciso falar da alegria, do riso, das banalidades e do ridículo que há em nós. Necessitamos do cômico e do trágico; de Dionísio e de Apollo. Do barroco e do clássico. Gostamos e queremos brincar “bem na hora da explicação da tarefa de casa”.

Sabemos que muitas vezes a noção de trabalho está centrada na filosofia “no pain no gain”... nessa idolatria maluca e competitividade. No entanto, acreditamos que uma ‘produção eficiente’ não necessariamente está ligada ao tempo que você passa na farfúncia.

Pensamos ser possível trabalhar com alegria e divertimento... visando uma postura ética, “meta-humana” (ops!) objetivando distribuição equânime da riqueza, do trabalho, do saber e do poder. Confessamos nossa utopia (mas a confessamos juntamente com Thomas More).

Segundo o italiano Domenico De Masi “o futuro pertence a quem souber libertar-se da ideia tradicional do trabalho como obrigação ou dever e for capaz de apostar numa mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo, enfim, com o ‘ócio criativo’ ”.

E se a delícia da vida mora na sagacidade do humor, no prazer de fazer o que se ama, na capacidade de canalizar esse vulcão... essa energia libidinal na produção laboral; na vocação de ser o que se faz e fazer o que se é... Esclareçam, por favor: por que cargas d’água exigem de nós tamanha seriedade e semblante!?

Ah esse suor que lhe escorre da testa... Quanto respeito ele denota!

– “Acabou a brincadeira!” Dizia a professora da Cristina quando queria inculcar em seu tímido cérebro as operações matemáticas.

E assim ela foi crescendo, engordando sua consciência com fantasmas, culpas e faltas. Aprendeu a disfarçar suas brincadeiras. Camuflou-as em buscas e inquietações. Agora, aos 50 anos, a alegria pulsa, sem constrangimentos! O júbilo está ao seu alcance, por boa parte do tempo. Seu corpo lê seus acordes, dança, canta, e junto, a língua se poetiza. As moléculas se agitam. Sente os sopros dessa delícia saltando pela pele e endoidece em festa com os amigos, com os amores.

Carolina conta que em seu tempo de “lápis e carteira” não existia a nomenclatura tão usual atualmente: bulliyng. Bem... não existia a nomenclatura, mas as práticas... essas sim! E a freguesia mais assídua eram as professoras e diretoras, que dotadas de uma perversidade ímpar, rezavam a cartilha do sistema educacional da época.. aquele tradicional, autoritário, religioso, prussiano, capitalista e sanafobitch.

- “Licença, professora... preciso ir ao banheiro”, a menina pergunta diante de toda a sala de aula.

- “Vai fazer o que no banheiro? Preciso decidir o tamanho do papel higiênico!”

Pois é... Bem sabemos quão alegrinhas e desavisadas as criancinhas podem ser. Tenho certeza de que nenhum de nossos alunos escutaria inerte, resposta tão grotesca. Nenhum professor de nossa Aldeia sairia ileso caso quisesse colocar suas insatisfações no lugar errado.

Essa liberdade é uma conquista. E é gradativa! Quanto antes proporcionarmos a possibilidade de liberdade às nossas crianças, tanto melhor! Mais inteligentes serão!

Quantos ‘haveres’ e ‘afazeres’ deixamos de assenhorar por conta das expectativas de outrem, de conceitos morais que renegam o bem comum, o amor e a alegria. Grandes e altas vozes, vindas do passado, se tornam a nossa própria voz para dizer o certo e o errado, o bem e o mal. Ah, felizes aqueles que conseguem uma voz interior que canta músicas festivas e declama poemas de amor.

Essa liberdade vivemos em viagens, leituras, amizades, e pasmem: no trabalho! Sim... vivemos liberdades nesse lugar de ‘oferecimento de belezas’. Nos entregamos e topamos o desafio da vida e fizemos do trabalho, um caminho, uma saída... a sublimação nossa de cada dia. O sinthoma. Uma das nobres possibilidade de elaboração das loucuras.

Bem sabemos que ainda muitos discursos ressoam em arquétipos que tem o trabalho como algo repleto de regras rígidas e sóbrias. São infinitos os absurdos organizacionais, mas não em nossa “Aldeia”, não em nosso quadrado. Divertimo-nos no que fazemos, sem antagonismos. Há uma harmonia de fazeres e deleites entre o acordar às cinco ou seis da manhã e as boas noites de sono.

Somos cúmplices de De Masi e não pregamos vagabundagem! Aliás, vivemos em desacordos com alguns indolentes parasitas que dedicam o seu tempo em desperdícios para a nossa sociedade. Mas se nos perguntarem se já vadiamos, se já jogamos tempo fora, imediatamente te convidaremos para uma cantoria animada... ou quem sabe para uma desajeitada dancinha pélvica regada ao som de Sidney Magal!


Esse foi laborado a quatro mãos e ‘performatizado’ a incontáveis gargalhadas!


Pensar a produção como prazer é uma inovação existencial e não simplesmente logística. É importante que em toda atividade esteja presente a criação de um valor, mas juntamente com isso, o divertimento e formação. Isso é ócio criativo!

E dizemos mais... essa observação empírica de que falamos aqui, já era há muito uma verdade bíblica. Vejamos: “aprendei dos lírios do campo, que não trabalham nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles”.




Carolina Parrode e Cristina Moraes,