segunda-feira, 27 de outubro de 2025

 Manual de Submersão e Retorno


Aprendi que, aconteça o que acontecer, a vida continua.
Só não disseram que, às vezes, continuar é o verbo mais cruel.




Durante anos, chamei de amor o que era descida.
Lenta. Disciplinada.
Chamavam o poço de lar.
Tinha cortinas limpas, cheiro de café e um silêncio educado - o tipo de silêncio que treina o corpo para não existir demais.
Aprendi a respirar sem barulho.
Perséfone, pontuando presença no turno doméstico do inferno.

Tentei reagir.
Li manuais, assisti vídeos, fiz listas.
Cada promessa acendia uma lâmpada
e apagava uma vogal.

A dor precisava render.
Converti o abismo em desempenho.
Chamaram de maturidade.

Eu permaneci.

Pediam-me luz.
Eu aprendia a brilhar no escuro.

Foi então que percebi: o patriarcado não é um homem.
É uma língua.
Mansa, burocrática, cheia de eufemismos.
“Fique calma.” “Você é forte.” “Respire.”
Ordens disfarçadas de afeto.
Eu as cumpria como quem assina ponto.

Dentro de mim, duas mulheres:
a lúcida e a sobrevivente.
Uma via o sistema, outra o justificava.
Ambas adoeciam: uma de lucidez, outra de esperança.

O espelho virou tribunal.
Devolvia uma mulher eficiente, mas sem cor.
As rugas eram planilhas.
O corpo, um arquivo corrompido.
Ainda assim, eu sorria.
Era o que se esperava: que o sofrimento não interrompesse o desempenho.

Até que um dia, cansada, parei.
“Superar”, percebi, era a palavra que me mantinha presa.
Ninguém supera o inferno; apenas o nomeia.
Permiti o silêncio.
Deixei a raiva respirar.
Da fusão entre lucidez e loucura nasceu outra língua: feita de pausas e de fogo.

Nunca duvidem da capacidade de um homem - e do mundo que o apoia - de reduzir uma mulher até que ela acredite ser pequena.
Mas também não duvidem da mulher que aprende a olhar de volta.

Quando olhei, petrifiquei o sistema.

Aprendi que, aconteça o que acontecer, a vida continua.
Mas não melhora.
Ela se vinga,
quando uma mulher fala.
  
Carolina Parrode.